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Poemas Passageiros - IV

November
09

(diretamente do Juvevê/Água Verde)

sábado
dez da noite
vindo do centro
um calor sem nenhum vento

e dentro do hibribus
estava aquela paz,
eu, meus pais,
e alguns mais

e voa o motorista
mudando pra outra pista
no asfalto bem vazio
ao contrário da calçada
(corrente cultural
com gente animada)

e a praça estava cheia,
a massa estava cheia,
a rua estava cheia,
a lua estava cheia
(na verdade eu não sei,
foi só pra rimar mesmo)

então é quando penso:
lá fora aquela música,
aqui dentro silêncio

silêncio?
mas ouço um ruído
baixinho no ouvido

e lá na frente eu vejo
ao lado do painel
uma pequena tela
mostrando alguma coisa

então vi afinal:
o motorista estava
vendo zorra total

é isso, minha gente,
zorra total

ZORRA TOTAL
DIRIGINDO,
QUE LINDO

só pode ser mesmo
uma zorra total

Poemas Passageiros - III

November
08

(diretamente do Interbairros V)

quando o ônibus demora
e por fim chega vazio
já se sabe que, em breve
a tendência é lotar

outra coisa que se sabe
é que sentar, nesses casos,
não é a melhor ideia
quando chegam os idosos

"o senhor quer se sentar?"
"obrigado, não precisa"
mas é claro que precisa,
ele acaba de pensar
"juro que eu já vou descer"
"mas não vá se incomodar"
ele por fim murmura
querendo que sua insistência
ganhe enfim com persistência

e quando já está lotado
e um banco então libera,
ninguém senta, com vergonha,
só ficam naquela espera

sem contar os que ainda
fingem que estão dormindo
mesmo que esteja aquele
sol de tarde de domingo

geralmente pra fugir
do levanta-não-levanta
eu acabo não sentando
e às vezes nem adianta

e se por acaso eu sento
pode ser em dois assentos:
ou no assento odiado
ao lado do lugar reservado
(aquele que tem que abaixar
e cuidar quando vai levantar)
ou naquele perigoso
bem no fundo, no alto, no meio,
que se o cara pisar no freio
você voa e se quebra inteiro

(por acaso é bem aqui
que estou sentada agora)

mas me diga qual é a graça
de ter que andar de busão
se às vezes a gente não passa
por um pouco de emoção?

Poemas Passageiros - II

(diretamente do Detran/Vicente Machado)

foi semana passada
quando sentei no hibribus
a mulher que estava ao meu lado
olhou minha mochila
e perguntou se eu fazia
engenharia mecânica

e quando eu disse que sim
ela olhou triste pra mim
"meu filho passou nesse curso
mas nem chegou a cursar,
quis mudar pra medicina”

e ela começou a falar
que ele não devia ter feito isso
pois apesar de ter passado
ele está um ano atrasado

"mas se era o que ele queria
que largasse a engenharia”
eu disse sempre pensando
nos frustrados reclamando

e ela contou sua vida
sobre sua filha mais nova
que não sabe pegar ônibus
e da primeira vez perdeu o ponto
por não apertar o botão

e me contou onde mora,
o nome de seu marido,
a faculdade do filho
e o cursinho da filha,
contou que já foi no novo shopping
(o pátio batel)
e que lá é um céu
de calmaria

e no meio da conversa
o motorista freou com tudo
e a grávida caiu no chão,
a velhinha só xingou
mas o outro moço ajudou

mas ela continuou contando
dos passeios em família
e é claro que depois
nós falamos sobre o tempo
calor aqui, frio pra lá
e apesar de o céu estar preto
não choveu, pra sacanear

e na hora de descer
me ocorreu o que era óbvio
para perguntar então:
"você é de curitiba?"
"não, não,
campo mourão.”

Photo


para refletir.

para refletir.


Poemas passageiros - I

November
06

(diretamente do Interbairros V)

ele tenta ler um livro
mas recebe uma mensagem
a cada dois minutos

a cada dois minutos
a garota na minha frente
olha pra trás
procurando alguém

e, ao lado dela, um desconhecido
usando um boné de memes
(é sério que isso existe?)
fala algo pra namorada
e ela faz careta

e um cara aqui sentado
ainda come cheetos
mas todo mundo sabe
que não se deve comer cheetos no ônibus

e todos só olham seus smartphones
a viagem toda
(inclusive eu
mas juro que é só porque
não consigo escrever com o ônibus andando)

e agora que sentei de costas
pra poder observar melhor
a menininha de rosa está me encarando
imaginando o que estou fazendo
ou por que a capinha do meu celular é amarela

mas ela olha pra todo mundo
que passa pela catraca
e talvez ela nem saiba
que aquilo se chama catraca

e só pra variar
o motorista esqueceu de abrir a porta
e todo mundo gritou com ele
mas vai que por acaso
ele só estava pensando
no almoço que ainda não teve

"vamos descer, minha filha"
e a menininha levantou
e tentou passar por baixo da catraca
"não, por aí não, a saída é aqui atrás"

acho que ela só queria
imitar as pessoas grandes
(mas ela era a única no ônibus
que estava vestida de rosa)

200 Dias no Cemitério.

November
04

E mais um livro nascerá.

Cemeteries of London

November
02

Eu nunca tinha percebido como cemitérios podem ser lugares inspiradores.

Por ora, eles possuem apenas um defeito: ficam lotados uma vez por ano, num dia muito bem definido. Lotados de gente chorando? Não. Lotados de hipocrisia, de compromisso com a obrigação, pra não sentir culpa. Afinal, quem criou o feriado de finados foi bem esperto. Acredito que ter uma funerária seja a forma mais fácil de ganhar dinheiro, pois eles podem aproveitar os momentos de fraqueza das pessoas para cobrarem o quanto quiserem, pra tirar o peso das costas.

E por que um feriado? Pra fazer as pessoas comprarem flores e velas pelo dobro do preço normal e colocá-las sobre o túmulo, a fim de que todos possam ver. Me desculpem, mas o seu ente querido não vai saber que você sente falta dele por causa das flores que você comprou. A lembrança não se compra, não mora num vaso de 15 reais.

As pessoas costumam pedir para que os mortos descansem em paz. E o fato é que eles estão em paz, provavelmente muito mais em paz do que nós. Um cemitério é, provavelmente, o lugar mais pacífico que existe. Até que as pessoas que não estão em paz, que não queriam estar ali e simplesmente vão cumprir sua obrigação social perturbem aquela paz.

Cemitérios são inspiradores… Pena que a perturbação do feriado me impediu de ver isso até agora. E o clima que sinto não é de tristeza, não é de medo ou de terror. É de Amor. Por baixo da fantasia que vemos sobre a terra, de cruzes, construções, fotos, flores, velas, capelas e lápides, jazem corpos iguais. Cada lapide carrega uma história que não conhecemos, uma dor diferente. Mas é uma dor passada. No final de tudo, o que sobra é a paz.

Um dos motivos que me faz gostar do Jardim da Saudade é que lá não existem grandes túmulos, apenas um enorme gramado com placas. É como se fosse possível tocar aquela paz, sentir Amor. Gostaria de passar uma tarde lá, sob o sol da tarde deitada naquela grama… Talvez as pessoas ainda tenham muito a nos ensinar mesmo depois de mortas, e nós gastamos tempo demais apenas remoendo dores e sentindo pena.

De certa forma, é uma pena. Uma pena que a maioria delas só consiga alcançar essa paz depois de morrer.

Não deixe que isso aconteça com você também.

Sobre os que vieram pra ficar, e a que estava e se foi

September
21

Algumas coisas às vezes me dão nos nervos. Por exemplo, o fato de que algumas decisões que não tem absolutamente nada a ver com a vida dos outros refletem de maneira tão triste na nossa vida. Quem me conhece sabe que eu não me arrependo de nada do que faço: tudo o que pertence ao meu passado, principalmente os momentos bons, eu guardo com carinho na lembrança. Talvez vocês me achem amargurada ou invejosa, ou que a culpa é inteiramente minha por não ter cuidado devidamente das pessoas, mas é inevitável pensar que isso é injusto. Sinto falta de muita gente. Gente que hoje olha nos meus olhos como se eu fosse um monstro por só ter ouvido um lado da história. Gente que não fala mais comigo porque simplesmente resolveu se afastar depois do acontecido - afinal, aparentemente foi decidido que era preciso fazer uma escolha entre quem deveria permanecer no grupo. Gente que se deixa enganar pelas aparências do passado e parece querer julgar o que é “melhor”. Nos momentos de fragilidade, sinto falta do tempo em que as pessoas ficavam felizes umas pelas outras, simplesmente pelo fato da outra pessoa estar feliz. Um apoio moral dos velhos amigos nos momentos difíceis. Queria só dizer que lamento.

E que sinto falta de vocês.

Being for the benefit of Mr. Kite

September
18

"Papai, todo mundo está vendo minha pipa?"

Era sábado. Coincidentemente, mais um dos dias em que a brisa vencia o sol em um duelo incansável tarde após tarde. Minha solidão me permitira pegar lugar naquele banco de praça, como quem não tem coisa alguma pra fazer, apenas para pensar na vida. Seria fácil se não fosse pelos visitantes.

"Sim, meu querido, toda a rua consegue avistar sua pipa."

"Não, papai. Não toda a rua. Todo o mundo.

Eu não daria mais de sete anos para o moleque. Ele não desviava os olhos da pipa para falar com o pai, apenas tentava empiná-la desajeitadamente com alguma técnica que eu desconhecia. Não entendia nada de pipas.

"Todo o mundo?"

"Sim, papai. Os alienígenas conseguem ver minha pipa?"

O pai parou por um instante, confuso com a pergunta. Eu estava incomodada por ter os pensamentos interrompidos, mas nesse instante até senti vontade de rir.

"Os alienígenas? Não, meu filho. Eles estão muito longe."

"E as pessoas na China? Conseguem?"

"Não, meu querido, a China fica do outro lado do mundo. Lá está de noite. Está muito longe para que vejam sua pipa."

O menino ficou em silêncio, como se pensasse muito. Por que ele achava que as pessoas poderiam ver sua pipa de tão longe?

"Mas e nos Estados Unidos, papai? Lá não está de noite agora."

O pai se espantou com a inteligência geográfica do filho e deu uma risada compreensiva.

"Mesmo os Estados Unidos estão muito longe para que vejam sua pipa. Apenas as pessoas aqui da cidade são capazes de vê-la, e, mesmo assim, não podem estar muito longe daqui."

"Mas por que, papai? Se ela está no céu… As pessoas veem as estrelas de qualquer lugar do mundo."

Ah, então era isso. Ele achava que, apenas por estar no céu, era possível que todo o mundo visse sua pipa.

"Mas pipas voam baixo, meu filho. As estrelas estão muito, muito longe da Terra, e é por isso que as pessoas podem vê-las de qualquer lugar."

O menino não estava satisfeito. Queria que sua pipa fosse vista de qualquer forma.

"E se eu empinar minha pipa o mais alto que eu puder?"

"Não é o suficiente, filho…"

Um silêncio inquietante pairou sobre a cena, o que me fez poder ouvir algumas andorinhas passando por perto da pipa do moleque.

"Mas por que você quer tanto que todo mundo possa ver a sua pipa?"

"Para que você possa me ver empinando pipas sempre que estiver viajando, papai."

Provavelmente fui a única que reparou nas lágrimas nos olhos do homem. Ele quase não se moveu por longos minutos, indeciso sobre como deveria reagir, e, por fim, agachou-se ao lado do filho, colocando a mão sobre seus ombros:

"Sempre que você estiver sentindo a minha falta, empine sua pipa o mais alto que você puder. Talvez eu possa enxergá-la de onde quer que eu esteja. Assim como as estrelas."

Não serei capaz de descrever a alegria presente nos olhos do garoto ao ouvir aquelas palavras nem mesmo o abraço fraternal que se deu logo em seguida. Meus olhos ardiam de saudade ao olhar aquela pipa. E aquela esperança boba que o pai plantara no coração do filho, como um símbolo de consolo que o salvaria da solidão, quis me salvar também da minha.

Fui para casa construir minha própria pipa. Colorida, com rabiola, bem a minha cara. Eu nunca soubera empinar pipa, mas o que eu mais queria agora era aprender.

Todos os dias solto minha pipa esperando que você possa me ver de longe. Nas tardes em que a brisa ganha do sol, minha pipa pode voar até você.

Basta olhar para o céu.

Saudades de te ter, a falta de não ser.

September
16

debaixo da mobília bem modesta

fazia sua festa em família

em meio a badulaques de cristal

e o barulho infernal dos tique-taques,

só sabia morar mesmo consigo

sem amigos e também sem acordar

de uma vida coberta de instantes

em estantes de madeira colorida.

.

no momento, escondida no sofá

só o que não há é encantamento,

a verdade por trás de sua poltrona

bem durona só espera ser capaz.

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